CRISTIANISMO E CULTURA – Uma crônica

Apesar de ter influenciado toda a cultura ocidental, o Cristianismo, em alguns de seus espaços e estruturas, foi sendo relegado – quando não relegou a si próprio – à uma margem. Funcionava como se os cristãos fossem reduzidos a um bocado de gente fanática e alienada. Um certo esteriótipo.
O caminhar do tempo, trouxe esclarecimento. Entretanto, há uma certa nebulosidade quando se relaciona o habitus cristão à possibilidades de consumo cultural. Isso acaba desaguando em uma espécie de contrassenso fenomenológico: O Cristianismo que transformou o Ocidente naquilo que é, e o fez pensar como pensa, lança depois, esta organização simbólica e rica para fora de si – guardadas as devidas proporções1.
Tendo isto na frente do olhar, cabe sempre retornar a uma verdade: pertence também – e muito mais – aos cristãos, o legado cultural de símbolos, linguagem e estética que norteiam a vida. Isto está também no que se refere à erudição e ao aprendizado. Os cristãos nutrem cultura!
O nosso Deus é o dono do mundo. Todas as coisas estão debaixo de seu domínio. Dentre todas elas, estão a literatura, a poesia, as belas artes, a boa música e gastronomia. Com prudência, podemos usufruir de todas estas coisas como forma de apreciação e refinamento.
A literatura, por exemplo, é importante neste processo. Quer ver? Quantas lições para o casamento podemos aprender com Liévin e Kitty, de Anna Karienina, uma das maiores obras clássicas da alta cultura, escrita por Liev Tolstói? Quanta sabedoria abnegação há em Alceste, personagem da mitologia, obra de Eurípedes, que morre para salvar seu marido. Podemos também nos inspirar e nos emocionar profundamente no amor caridoso de Jean Valjean e Cosette, personagens de Os miseráveis, do francês Victor Hugo. Nas obras de Jane Austen, das Irmãs Bröntes, e tantas outras.
Poesia também pode ser um meio pelo qual nutrimos cultura e autocuidado. Há tantos poetas cristãos com sensibilidade em nos fazer apreciar a obra da criação através de suas palavras! Adélia Prado em seu lindo poema intitulado Assim na terra como no céu, descreve o dia comum de uma dona de casa que eleva seu cotidiano.
Nesta hora da tarde quando a casa repousa a obra de minhas mãos é esta cozinha limpa. Tão fácil um dia depois do outro e logo estaremosjuntos nas “colinas eternas”. Recupera meu corpo um modo de bondade, a que me torna capaz de produzir um verso. Compreendes- me, Altíssimo? Ele não responde, dorme também a sesta²
Nada mais que uma boa poesia. Ela mesma pode nos aproximar de Cristo através da inspiração. Que a boa literatura que muito possui de princípios cristãos, possa ser uma possibilidade na vida, tendo em mente que, ao nos aproximarmos dela, nos afastamos de trivialidades e de superficialidades banais do cotidiano. Antes ela!
Autora: Profa. Ma. Gideane Franco
Professora da Faculdade Bíblica das Assembleias de Deus – FABAD
Possui graduação em Teologia pelo Instituto Bíblico das Assembleias de Deus (2011); graduação em Ciências teológicas pela Faculdade Boas Novas (2012); Pós-graduação em Filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Mestrado em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo (2016). Doutorado iniciado em Ciências da Religião- UMESP. Membro do grupo de pesquisa Teologia e economia. Tem experiência na área de Teologia, com ênfase em Teologia; Filosofia e Ciências da Religião.



