Teologia Coaching – prática de igrejas na contemporaneidade

Nos últimos anos tem ocorrido um fenômeno distinto em diversas igrejas evangélicas espalhadas pelo Brasil, algo que temos denominado como Teologia Coaching. Trata-se de uma prática religiosa cristã evangélica que importou para a sua teologia elementos do coaching, como a questões trabalhadas nesse campo de conhecimento que tem se consolidado no âmbito nacional.
Diante do desafio de desenvolver uma abordagem teológica consistente, é necessário buscar referenciais teóricos que sustentem o método de análise proposto. Aqueles que utilizam o coaching juntamente com a teologia baseiam-se em alguns teóricos para fundamentar suas reflexões e dar credibilidade às suas abordagens. Essas abordagens, que fogem da ortodoxia, conseguem trazer uma conotação espiritual e religiosa ao discurso do coaching, sem que a psicologia, mesmo presente, se torne mais evidente, mas que auxilie na maior credibilidade científica dos discursos desses coachs cristãos.
A pergunta central desta reflexão é: a psicologia ercksoniana e positiva são capazes de fundamentar e fornecer credibilidade ao discurso dos pastores/coachs que tem influenciado as igrejas filiadas à Convenção das Igrejas Batistas Independentes (CIBI) em sua teologia e liturgia, ressignificando o modelo existente? Com a finalidade de propor uma análise das atividades de pastores da CIBI que aderiram ao modelo proposto pela Rede Inspire, surge esta reflexão, com intuito de contribuir com as discussões oriundas do campo evangélico brasileiro, sobretudo, dando ênfase a Teologia Coaching.
Desde o início da década de 2010, com o crescimento do coaching no Brasil, surgiu um novo nicho no mercado religioso. Esse nicho introduz uma nova forma de inserção teológica nas igrejas, onde coachees, pastores e fiéis trazem para suas igrejas o conhecimento adquirido em cursos e workshops. Eles ressignificam suas verdades teológicas e incorporam as ferramentas recebidas para dar um novo direcionamento às igrejas que lideram ou frequentam.
Para se desenvolver um conhecimento, ou elaborá-lo de forma fundamentada, faz-se necessário a busca de um conteúdo teórico que possa corroborar o que se está sendo refletido. Este esforço tem sido feito pelos propagadores da Teologia Coaching, que buscaram na psicologia, sobretudo, uma forma de desenvolver esse modelo de teologia, sendo possível detectar elementos de pelo menos dois tipos de abordagem psicológica: a Psicologia Ercksoniana e a Psicologia Positiva.
A neurolinguística é um método da psicologia que aborda a psicanalise sem a necessidade do transe, como realizava Sigmund Freud (1856-1939), em seus procedimentos. Para Milton Hyland Erickson (1901-1980), o trabalho da neurolinguística é dar autonomia para o indivíduo frente aos apontamentos propostos pela terapia. A Psicologia Ercksoniana trabalha, entre outras coisas, com a neurolinguística, que enfoca a psicanalise, mas sem a necessidade do transe, utilizando a linguagem como uma forma de enfatizar positivamente as pessoas que estão sendo induzidas ao processo.
A psicologia positiva não nega o sofrimento, mas se conecta à saúde e ao bem-estar psicológico, promovendo um engajamento ativo no mundo e um propósito na vida. Nansook Park, Christopher Peterson e Martin E. P. Seligman afirmam que as fortalezas do caráter e as experiências positivas são centrais na psicologia positiva, influenciando pensamentos, sentimentos e comportamentos de forma positiva. Essas emoções positivas ajudam a enfrentar situações da vida, fortalecendo repertórios físicos, sociais e intelectuais. A teoria da psicologia positiva busca avançar no conhecimento de aspectos virtuosos como esperança, criatividade, coragem, sabedoria, espiritualidade e felicidade, atuando como preventivos e protetores.
Os pastores incorporaram elementos do coaching, espiritualizando a linguagem e utilizando suas ferramentas e metodologias para melhorar a vida das pessoas. O coaching estimula a busca pelo futuro, planejando etapas para que o coachee possa atingir seus objetivos. Essa abordagem é semelhante à dinâmica presente no Cristianismo evangélico, onde o fiel caminha espiritualmente para chegar à conquista.
De forma geral, o local de anunciação do evangelho, da pregação da Bíblia, aparentemente continua intacto. Ocorre, porém, que os(as) líderes e membros, agora empoderados, sentem-se na competência de transmitir o que se aprendeu nas ministrações recebidas. Adapta-se, assim, a liturgia e a teologia, com a finalidade de inserir tais elementos ao culto daquela igreja.
No púlpito coaching, o pastor, mentoreado por um coach/pastor, se transforma em um líder mais contemporâneo, com uma linguagem moderna e menos religiosa. Ele se apresenta como mais técnico e compassivo, utilizando exemplos que vão além da religião. Na aparência, pastores substituem vestimentas tradicionais por calças jeans, camisas estampadas e tênis, e em eventos pontuais, utilizam gravatas. Quando usam ternos, são de alta costura e modelos slim. A iluminação comum é trocada por jogos de lâmpadas e, em alguns casos, fumaça de gelo seco, criando uma espetacularização da fé cristã e quebrando paradigmas litúrgicos e teológicos ortodoxos.
Autor: Prof. Dr. Samuel Pereira Valério
Professor da Faculdade Bíblica das Assembleias de Deus – FABAD
Possui graduação em Teologia e Especialização em Psicologia e Aconselhamento Pastoral. Possui Mestrado e Doutorado em Ciências da Religião. Tem experiência na área de Teologia, com ênfase em Teologia, pentecostalismo, Igreja Batista Sueca.
Atua como professor na FABAD na disciplina de Teologia Contemporânea.



