Não nos faltam tratados sobre a relação entre ciência e fé, fé e ciência! Muitos já se propuseram a este exercício. Entretanto, uma leitura simples e atenta à boa parte destes empreendimentos, mostra-nos que há determinada consolidação, em que ciência e fé não são apenas antagônicas, mas diametralmente distintas e sem ou quase nada em comum. Tal ênfase, portanto, coloca a ciência e a fé em constante oposição, admitindo-se inclusive, que não há meio de interação entre ambas.
Com o advento das chamadas “ciências sociais” e seus desdobramentos (gestados no berço do Iluminismo), a partir do século XIX d.C., o acirramento entre ciência e fé foi largamente intensificado sob a ideia e crença de que a ciência resolveria todos os problemas da humanidade e, por isso, a fé (religião) não seria mais necessária.
É nesse ínterim, que duas escolas de pensamentos se sobressaem. De um lado, pensadores, cientistas, filósofos, educadores e outros, tais como: Émile Durkheim, Karl Marx, Max Weber, Freud e mais recentemente Stephen Hawking (in memorian), fundamentaram e estruturam a proposição de John William Draper (1811-1882) e de Andrew Dickson White (1832-1918)1. Esta escola compreende que a religião (fé) se trata de uma patologia e não de algo inerente e próprio ao ser humano. Logo, todos eles propuseram versões da tese da secularização, a visão de que a religião cairia em face da moderna tecnologia, da ciência e da cultura.
Por outro lado e na contra-mão dessa escola, que enxerga a religião como uma patologia, há outra vertente que, por sua vez, compreende a “fé” como elemento inerente à essência e natureza humana, i.e., não se trata de uma construção imaginária individual e/ou coletiva, mas uma constituição identitária necessária do próprio indivíduo. Pertencem a esta escola os principais expoentes da “Revolução Científica” iniciada nos séculos XI, XII, XVI e XVII d.C., cujos princípios serviram de plataforma e base para as chamadas “ciências modernas”, dos quais cito: Nicolau Copérnico (1473-1543), Leonardo da Vinci (1452-1519), Francis Bacon (1561-1626), Galileo Galilei (1564-1642), Jan Amos Komensky (1592-1670), René Descartes (1596–1650), Johannes Kepler (1571–1630), Isaac Newton (1642-1726), Francis Collins (1950) e outros.
A pergunta, portanto, que devemos fazer é: Pode haver interação entre ciência e fé? A resposta é um sonoro sim! Pois, é inegável que cada uma a sua maneira, fé e ciência têm oferecido recursos valiosos para uma mudança de consciência ética e de ação entre os seres humanos.
Falando exclusivamente do Cristianismo, a partir do seu surgimento, nasce também o conceito de “dignidade humana”, “valorização do indivíduo” e do “pensamento individual”. A ciência moderna, inclusive, deve sua existência às diversas contribuições dos cientistas cristãos, cujas bases e princípios ainda existem e a norteiam nos dias atuais.
Logo, é necessário reconhecer as grandes contribuições que a fé e a ciência oferecerem à humanidade. Assim, parece-me razoável pensar sobre algum ponto de conexão ou convergência entre ambas, já que são fundamentais para elaboração de sentido à vida. É exatamente aqui, que o texto de Jo 6.1-12 sobre a tão conhecida multiplicação dos pães e peixes se encaixa, a partir das reações de Jesus.
Ao perguntar ao discípulo Filipe (v. 5) onde comprariam pão para toda aquela gente, Jesus está estabelecendo os limite de ambas. No entanto, Jesus não despreza os dados científicos, nem o menospreza. Quando ouve a resposta de André – “que duzentos denários eram insuficientes”-, Jesus não faz nenhum questionamento, nem acusa o seu discípulo de não possuir fé. De forma semelhante, Jesus reage ao comentário do discípulo André (v. 8, 9), que após apresentar o rapazinho com os cinco pães e os dois peixinhos, pergunta: “mas, que é isso para tantos?”
Tanto Filipe quanto André estão corretos em suas ponderações (dados, cálculos, conclusões, etc.), mas Jesus informa-nos o limite fronteiriço da ciência, e é exatamente nesse limite que a fé permanece e continua. Jesus também nos ensina que a fé não é solta, sem parâmetros e sem constituições.
A fé administra o que nos escapa às mãos, ao controle e ao domínio. Jesus utiliza dos fatos e das observações para a partir da fé estabelecer: 1) ordem: “mandai assentar os homens” (acomodar) (v. 10) (controlar a situação); 2) igualdade: “…havia muita relva naquele lugar. Assentaram-se, pois, os homens em número de quase cinco mil” (v. 10);
3) trabalho voluntário: “E Jesus tomou os pães e, havendo dado graças, repartiu-os pelos discípulos, e os discípulos, pelos que estavam assentados” (v. 11); 4) justa distribuição:
“e igualmente também os peixes, quanto eles queriam” (v. 11); 5) saciar da fome: “E, quando estavam saciados…” (v. 12).
É nítido nesse episódio milagroso da multiplicação dos pães e peixes, a interação das contibuições da ciência (dados, cálculos, conclusões, etc.) e a fé, que permanece, contínua e ultrapassa os limites postos pela ciência. Com isso, Jesus nos ensina que é possível estabelecer alguma conexão entre ciência e fé, fé e ciência. Ambas são imprescindiveis à humanidade, quando se unem para desarticular tudo o que provoca desordem, desajuste, desorganização, desigualdade, desqualificação, escravização, miséria, entre outros.
Por fim, pode-se afirmar que é salutar, benéfico, possível e praticavél ser um cientista e um cristão autêntico, ou seja, uma coisa não anula a outra. Nas palavras de Louis Pasteur: “Um pouco de ciência nos afasta de Deus. Muita, nos aproxima.”
Referências: 1 DRAPER e WHITE defendiam e afirmavam que a relação entre ciência e fé (religião) sempre foi conflituosa.
Autor: Prof. Dr. Omar João da Silva
Professor da Faculdade Bíblica das Assembleias de Deus – FABAD
Possui graduação em Teologia pelo Seminário Teológico Batista Nacional Enéas Tognini (2013), convalidado pela Universidade Metodista de São Paulo (2015), graduação em Gestão de Recursos Humanos pela Universidade Ibirapuera (2009). Mestre e Doutor em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP). Tem experiência na área de Teologia e Bíblia, com ênfase na linguagem religiosa do Antigo Testamento. Pós-doutorando em Teologia (PPGT) da Pontifica Universidade Católica do Paraná (PUC/PR)..
