A Bíblia, um livro traduzido

Por Francikley Vito

Em sua Declaração de fé (2017, p. 25), os grupos pentecostais representados primordialmente pela Assembleia de Deus, ensinam e professam sua crença de que “a Bíblia Sagrada é a Palavra de Deus, única revelação escrita de Deus dada pelo Espírito Santo, escrita para a humanidade e que o Senhor Jesus Cristo chamou as Escrituras Sagradas de a ‘Palavra de Deus’” e que os livros da Bíblia Sagrada foram “produzidos sob inspiração divina”.

Este ensino acerca da inspiração plenária do Livro Sagrado não pode deixar de considerar o fato de que os textos bíblicos foram produzidos em línguas muito diferentes do português falado hoje em nosso país. As línguas originais dos textos da Bíblia, o hebraico, o grego e o aramaico não são línguas acessíveis a maioria dos leitores brasileiros. Daí a necessidade do mecanismo da tradução, que ao verter um texto de uma língua de partida para uma língua de chegada – no nosso caso o português brasileiro – acaba por ter que fazer algumas escolhas adaptativas importantes para o texto bíblico seja lido e compreendido.

Considerando as afirmações da Sociedade Bíblica do Brasil (SBB), entidade responsável pela distribuição de grande número de Bíblias para toda a América Latina, a tradução do texto sagrado pode priorizar um dentre dois caminhos: ou a tradução por equivalência dinâmica ou a tradução por equivalência formal. A tradução por equivalência formal é um método de tradução que prioriza a tradução palavra por palavra e a fidelidade à estrutura gramatical do texto original; já a tradução por equivalência dinâmica é uma abordagem de tradução que prioriza a resposta e o efeito de sentido que a mensagem terá no público-alvo da língua de chegada, em vez de aderir estritamente à forma original do texto. Ambos os métodos são usados para traduções de bíblias em diferentes contextos e realidades históricas, inclusive no contexto brasileiro.

Um marco histórico importante para a efetiva tradução da Bíblia foi a Reforma Protestante (séc. XVI), movimento iniciado na Europa e que pregava uma reformulação nas práticas da Igreja Católica Romana. Em face dos seus pilares de crença – como “somente a Escritura” e “a Bíblia para o povo”, por exemplo – os reformadores empreenderam um árduo trabalho de tradução da Escrituras Sagradas. Martinho Lutero traduziu a Bíblia para o alemão; João Calvino influenciou na tradução da Bíblia para o francês e o Rei Tiago patrocinou uma tradução da Bíblia para o inglês (a tradução King James), todos eles movidos pela certeza de que a Bíblia precisava ser lida pelo povo em seu próprio idioma.

É nessa esteira histórico-ideológica que nasce a mais relevante tradução da Bíblia para a língua portuguesa em contexto protestante, a Bíblia traduzida por João Annes Ferreira de Almeida.  Almeida começou sua empreitada de tradução ainda jovem e morreu sem concluir sua tradução do Antigo Testamento, um empreendimento de uma vida toda! O Novo Testamento foi concluído em 1676 e publicada em 1681 em Amsterdã, na Holanda, mas a primeira edição da Bíblia completa só foi publicada muito depois, em 1819, após a conclusão da tradução do Antigo Testamento por seus alunos, depois da morte do seu mestre-professor.

Em nossos dias, é possível ter em mãos várias versões da tradução de João Ferreira de Almeida, desde aquelas mais formais – como a Almeida Revista e Corrigida – até aquelas versões mais modernas – como a Almeida Século XXI. Ter a Bíblia traduzida em sua própria língua é um privilégio que alguns povos no mundo ainda não têm; portanto cabe a nós sermos gratos a Deus por termos a Sua Palavra em nossa própria língua!

Temos hoje no Brasil várias traduções e versões do Livro de Deus, mas a pergunta que deveríamos fazer é: Será que nós, como seguidores do logos divino (João 1.1), estamos honrando o legado dos vários outros cristãos que trabalharam para que tivéssemos as Escrituras em nossa própria língua? Estamos andando sem nos apartar da Lei do Senhor ou estamos distanciados dela (Josué 1.8)? Ou será que estamos agindo como “ouvintes esquecidos” (Tiago 1.25)? A resposta honesta a essas perguntas, trará vida ao nosso presente, paz ao nosso passado e esperança ao nosso futuro. Que tenhamos todos boas e produtivas leituras do texto bíblico, sempre em gratidão e reconhecimento da nossa necessidade e dependência dos oráculos de Deus!

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